Poder feminino na gestão pública, ressignificação do protagonismo social na nova conjuntura e papel dos próximos gestores no pós-pandemia. Com a discussão desses temas, encerrou-se, na manhã desta terça-feira (29), o evento virtual “Democracia? Responsabilidade política e cidadania consciente”, dentro do 2º Ciclo de Debates Diálogos Presentes da Fundação Casa de José Américo (FCJA). A mesa teve como convidadas a professora e feminista Glória Rabay (UFPB) e a diretora-geral do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PB), Silma de Albuquerque, com participação especial da procuradora da República, Raquel Dodge.
Gloria Rabay traçou um pequeno histórico da participação feminina na política e falou sobre os baixos índices de mulheres nos cargos de chefia e nas esferas de poder do Estado. “Somos o terceiro país com menor representatividade feminina na América Latina. Se olharmos para o ranking mundial, os nossos indicadores são ainda mais vergonhosos”, disse. Para Raquel Dodge, essa desigualdade deixa as mulheres à margem dos processos de elaboração das políticas públicas. “Os movimentos sufragistas do século passado ressaltavam que os direitos são das mulheres, mas as leis são dos homens. Para criar novas leis, portanto, as mulheres precisavam ter o direito de votar e de serem votadas. Isso ainda é muito atual”, completou.
No Brasil, esse direito passou a ser realidade há cerca de 90 anos – no entanto, o percentual de mulheres no poder permanece quase o mesmo, desde 1940. “Somos maioria numérica, mas essa supremacia não se repete na ocupação de cargos de chefia, nem no setor privado nem no público. Em relação à representatividade no Parlamento, estamos atrás de países como a Etiópia e da Arábia Saudita”, destacou Silma de Albuquerque. De acordo com ela, dos 223 municípios paraibanos, apenas 41 são comandados por mulheres. “Ainda estamos muito distantes, e por isso é tão necessário que haja cada vez mais união entre as mulheres. Somente por meio da união será possível mudar essa realidade”, disse.
A importância da democracia representativa foi ressaltada por todas as convidadas, mas não como o único caminho para mudar a realidade. “`Para assegurar a igualdade e a universalidade dos direitos, é justo lutar por políticas públicas que não discriminem, que sejam plurais e inclusivas, que atentem para o fato de sermos uma nação multiétnica, de muitas crenças e visões de mundo”, disse a procuradora Raquel Dodge. Para Gloria Rabay, a participação social tem de vir por meio do acesso à educação, ao saber, à cultura e aos recursos necessários a uma vida digna. “Quem está na miséria não está preocupado com o poder formal. Enquanto não estivermos todos envolvidos na construção de uma sociedade cidadã, a democracia não se estabelecerá”, finalizou.
O evento “Democracia? Responsabilidade política e cidadania consciente” aconteceu nas manhãs das terças-feiras de setembro, com os temas “Vivemos mesmo numa democracia?”; “Democratização da mídia”; “Racismo estrutural e democracia brasileira” e, este último, “Cidadania e responsabilidade política: eleições de 2020”.