Publicação 25/02/2016 00:00, Atualização 19/05/2026 14:18
ÀS 19:30
CENSURA 14 ANOS
COMENTARISTA
Andrés von Dessauer
A mitologia é um tema recorrente na 7ª Arte. No filme 7 Caixas essa temática resta presente na conexão entre Caronte, barqueiro do Hades, e o jovem protagonista Vitor, considerando que, ambos vivem do verbo ‘transportar’. No entanto, se de um lado Caronte transportava, conscientemente, sua carga funesta pelos rios Estige e Aqueronte, de outro, Vitor, de forma inconsciente, é levado, em um caso específico, a desenvolver o mesmo labor no ‘Mercado 4’ de Asunción. E esse trabalho especial lhe é abonado, antecipadamente, com a metade de uma nota de cem dólares. Para esse carregador (caritilero) a citada cédula danificada, representa um divisor de águas, pois, tornaria realidade seu sonho de adquirir um celular de última geração. Vitor, com efeito, suporta toda eletricidade de um dos mais vigorosos roteiros dos últimos tempos e, a imagem rasgada de Benjamim Franklin (inventor do para-raios) na nota de US$ 100, se revela uma metáfora precisa, do efeito catalisador desse personagem.
De Carlo Manéglia e Tana Schémburi o filme rodado, integralmente, no citado mercado, em 2012, foi considerado uma das mais destacadas películas sul-americanas do século XXI. De fato, de tão revelador, esse trabalho afastou o Paraguai (país mais conhecido por seu fluxo de mercadorias duvidosas) de um verdadeiro ostracismo cinematográfico. Apesar do diminuto tamanho desse país, os referidos cineastas transformaram o ‘Mercado 4’ em uma arena onde a globalização toma, nitidamente, o lugar do leão. E, isso fica claro não só pela internacionalidade dos produtos ali negociados, como pela variedade étnica de seus frequentadores, e pela diversidade linguística (espanhol, guarani, coreano e yopara – uma mistura dos dois primeiros idiomas) que ecoa em suas vielas.
Aliás, ao danificar a maior nota, atualmente, vigente nos EUA, Manéglia e Schémburi parecem rechaçar os preceitos hollywoodianos de que, para ser bem sucedida, uma película deve contar com alto custo de produção e com atores renomados. Outro sinal dessa ruptura de padrões é a constatação de que o recurso do ‘MacGuffin’ (elemento desconhecido, próprio do mistério), brilha por sua ausência sem comprometer, em nada, o roteiro. Valendo notar que, ‘7 Caixas’, representa uma simbiose de thriller policial com comédia, o que inviabiliza sua classificação em um determinado gênero. E, a ideia de obra voltada à crítica social não se sustenta, pois, o fascínio de Vitor pela tecnologia é tamanho que o leva a igno rar sua própria subsistência.
Para parte da crítica algumas das tomadas desse trabalho teriam sido copiadas de outros (‘CORRA, LOLA, CORRA’; ‘SLUMDOG MILLIONAIRE’; ‘CIDADE DE DEUS’) e, assim, careceria o mesmo de originalidade. Isso até poderia ser verdade, se pudéssemos ignorar a filosofia milenar de que, ‘na vida nada se cria, tudo se transforma’. Tanto é assim que, a diferença entre os elementos químicos está na combinação de seus átomos. Nesse contexto, a substituição das quadrigas, (da antológica corrida do filme ‘BEN-HUR’, William Whyler, 1959) por carrinhos de mão, fez esse trabalho alcançar mais de 90% de aceitação entre os frequentadores do site Rotten Tomatoes.
Mas, para quem insiste na teoria da réplica, vale assinalar que, o semblante do protagonista Alex (no filme ‘CLOCKWORK ORANGE’ – Kubrick, 1971), emoldurado por um colar cervical, parece ter sido a inspiração para o sorriso de vitória impresso no rosto de Vitor ao debutar na TV paraguaia. Expressão, aliás, que de tão ingênua, contagia até a plateia mais exigente.